Há coisas em nós que aprendemos a explicar muito bem.
Uma palavra dura pode se tornar “apenas sinceridade”. Uma mágoa guardada durante anos pode receber o nome de prudência. A falta de perdão pode parecer justiça. E alguns pecados, depois de repetidos muitas vezes, começam até a fazer parte da paisagem.
Continuam ali.
Mas já quase não os percebemos.
Talvez uma das maiores dificuldades da vida espiritual não seja descobrir que somos pecadores. No fundo, sabemos disso. A dificuldade está em parar de justificar aquilo que precisa ser reconhecido.
É aí que começa a Confissão.
Não diante de um Deus interessado em nos constranger, mas diante de um Pai que deseja nos devolver aquilo que o pecado vai silenciosamente roubando: a liberdade, a paz e a amizade com Ele.
Bento XVI dizia que reconhecer a própria culpa é algo elementar para o ser humano. Quando perdemos essa capacidade, alguma coisa em nós adoece. Porque começamos a nos acostumar conosco mesmos.
E acostumar-se consigo mesmo pode ser perigoso.
Pouco a pouco, deixamos de perguntar se determinada atitude é boa e passamos apenas a perguntar se ela é compreensível. Comparamos nossos erros com os dos outros. Encontramos circunstâncias atenuantes. Recordamos tudo aquilo que fizeram contra nós.
E podemos passar muito tempo assim: defendendo-nos de uma acusação que Deus talvez nem esteja fazendo.
Porque Cristo não veio para nos convencer de que somos irremediavelmente culpados.
Veio para nos perdoar.
No Evangelho, Jesus se aproxima justamente daqueles que carregam uma história que precisa ser reconciliada. Ele não chama o pecado de virtude e não transforma o erro em algo indiferente. Mas também não reduz ninguém ao pior momento da própria vida.
Ele perdoa e diz: recomeça.
Talvez seja por isso que confessar os próprios pecados exija tanta coragem.
É preciso abandonar por alguns minutos todas as explicações e simplesmente chamar as coisas pelo nome.
Eu pequei.
Eu feri.
Eu fui indiferente.
Eu sabia que não deveria e fiz mesmo assim.
Não porque Deus ainda precise descobrir alguma coisa sobre nós. Ele já conhece aquilo que tentamos esconder.
Somos nós que precisamos colocá-lo diante d’Ele.
Na Confissão acontece então algo que nenhuma justificativa consegue produzir: escutamos que fomos perdoados.
Não apenas imaginamos o perdão.
Não tentamos convencer a nós mesmos de que “está tudo bem”.
Recebemos, por meio da Igreja, a absolvição sacramental e a possibilidade concreta de começar novamente.
Bento XVI certa vez utilizou uma imagem muito simples para falar da Confissão frequente. Limpamos nossa casa repetidas vezes, mesmo sabendo que a sujeira voltará. Não esperamos que ela se torne insuportável para começar a cuidar dela.
Com a alma pode acontecer algo parecido.
Os pecados talvez sejam os mesmos. As impaciências podem voltar. As mesmas fraquezas podem nos acompanhar durante anos.
Ainda assim, confessar-se não é inútil.
Cada Confissão educa novamente a consciência. Faz com que aquilo que começava a parecer normal volte a nos incomodar. Ensina-nos a reconhecer onde precisamos lutar e, sobretudo, lembra-nos de que essa luta não depende apenas das nossas próprias forças.
A misericórdia não significa que o pecado deixou de ter importância.
Significa que o pecado nunca terá a última palavra.
Talvez faça muito tempo desde a sua última Confissão.
Talvez exista alguma coisa que você tenha vergonha de dizer.
Talvez você pense que deveria primeiro melhorar para depois procurar o sacramento.
Mas ninguém procura um médico porque já está curado.
Nós nos aproximamos justamente porque precisamos ser curados.
E talvez o primeiro passo não seja conseguir mudar tudo.
Talvez seja simplesmente ter a coragem de entrar no confessionário, ajoelhar-se e começar:
“Padre, eu pequei.”
E então dizer, com simplicidade e verdade, aquilo que pesa na consciência.
Deus já conhece os nossos pecados. Somos nós que precisamos reconhecê-los, pronunciá-los sem desculpas e entregá-los à sua misericórdia.
Na Confissão, não contamos a Deus algo que Ele ainda não sabe.
Nós dizemos nossos pecados porque precisamos trazê-los à luz, assumir a verdade sobre nós mesmos e, pela absolvição, ouvir aquilo que sozinhos jamais poderíamos dizer a nós mesmos:
os seus pecados estão perdoados.